META-FIXA II
ESTÉTICA DO SIMBOLISMO
Hoje
estou só. Só, absolutamente só e não sei se numa ilha ou arquipélago seco me
encontro em desencontro, por não saber aonde vou nem o que sou. E este meu estado
solitário silencioso e não barulhento, é um pouco devido a minha surdez. Mas estranhamente
se não estou feliz também não estou triste, nem melancólico. Estado neutro, talvez
e assim serenamente ordeno os mais vivos e coloridos objetos mentais em minha
memória, e sem qualquer resistência faço uma viagem fluídica retornando para onde
outrora andei, e ao observar o velho ambiente com certa acuidade mental, sinto a
presença das pessoas mais queridas e inesquecíveis! Por elas, em homenagem à
vida que prosseguiu desse lugar e chegou até este agora, recrio ao fundo belas e
coloridas paisagens, com toda a originalidade daqueles tempos de bonitos e
pequeninos episódios com imortais cenas, às vezes até banais e em
circunstâncias inesperadas, mas ainda que pequenas e mesmo pequeninas, inesquecíveis
e de profundas e saudosas memórias.
Por isso, apenas por isso e
por essas belas imagens memoriais eu agradeço andarem ainda em mim, agradeço imensamente
por ter andado por aí e vivido esses momentos com amizades, com amigos e saudosas
mulheres das quais até o perfume ainda guardo de tão memoráveis lembranças! Amorosamente
presentes não só na mente, mas também no meu inocente coração metáfora de
sentimentos supremos que desaguam nesta Carta Testamento para sempre.
Muitas personagens das quais
nem guardo rostos nem vozes, também fazem parte dessa enorme tela um pouco por
isso mais enfumaçada na parte periférica, mas igualmente muito generosas dão
corpo a um imenso retrato em preto e branco, harmoniosamente colorido no
centro, como síntese do tempo que já passou. Todavia permanece em meu
inconsciente saudosa lembrança quase de augusta presença, quando profundo
sentimento amoroso sobrevém e em seu enlevo e asas me deixo levar até essas paragens.
Ás vezes segrega lacrimosos sentimentos internos, mas já não há mágoas.
E então, me elevam a um
cenário de estrema beleza quando exercito o mais ingênito sentimento pátrio em nossa
língua, a saudade, eterna e generosa saudade. Saudade esta harmoniosa palavra filha
natural e única da alma lusitana, em nobilíssimo e sublime sentimento às
longínquas terras foi levada em singular forma de sentimento, saudade; apenas
saudade e de tal maneira fecunda amorosamente o espaço etéreo mental em dourada
estrofe, e sem par no mundo, eternizou-se em quase divina, saudade!
Rude nos rudes, divina e
liricamente por Ele magistralmente cantada: “Que me quereis perpétuas saudades? ” Para que, de tal arte jamais
alguém ousasse igualar em verso e também para que não vá a estranhos palcos ser
exibida, posto ser tão somente profunda e amorosamente SAUDADE!
Bebo-a em longos tragos, sim,
bebo-a e por estar tão intimamente presente em minha alma, as lágrimas nela
vertidas se convertem em cristais límpidos de um sentir a ornar o ilustre peito
lusitano!
E onde houver um simples
vocábulo português aí estará altiva a conceder a tônica e a revelar do sangue a
real herança de uma raça, cujo nobre sentimento da amizade exprime de espírito sua
beleza em lusitaníssima saudade!
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